Forma-se um Analista

15/04/2015 13:11

     Desde Freud a formação dos psicanalistas se inscreve como da ordem de um tornar-se, fruto de um trabalho de construção que se processa fundamentalmente numa experiência de análise: a formação dos psicanalistas é uma formação permanente. Toda e qualquer psicanálise pessoal levada a termo poderá causar um psicanalista.

     Então como se dá a formação de um Analista? Essa é uma das perguntas mais frequentes entre os estudantes de psicanálise e psicologia. No texto escrito por Freud (1919) “Sobre o ensino da Psicanálise nas Universidades”, ele afirma que a formação de um analista deve ser sustentada a partir de um tripé constituído por: ensino teórico, análise pessoal e supervisão. Tripé esse que teve sua importância reafirmada por Lacan.

     Com relação ao ensino teórico e a análise pessoal, Lacan enfatiza que esses dois tripés estão intimamente associados (1958). Lacan critica a dicotomia entre análise didática e análise terapêutica, questionando que toda análise é didática (analista se torna analista em sua análise). No texto “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, questiona a respeito de como seria possível a transmissão da psicanálise, dando ênfase ao que Freud já afirmava: “Ninguém jamais esquece aquilo que aprendeu na transferência”. Portanto, o ensino é produzido dentro do contexto da experiência analítica, pois é na análise que se tem acesso ao inconsciente e se pode articular saber e verdade.

     A análise é, portanto, o pilar fundamental. Segundo Lacan, é no final da análise que se produz um analista, na medida em que se pode emergir o desejo de analista, que é o vetor de toda análise (distinto do desejo do analista). É também, a partir dela, que o futuro analista obtém uma referência para sua prática clínica e consegue estabelecer seu próprio estilo (marcado pela forma como lida com seu gozo, desejo e fantasia.).

     A análise permite ao analista lidar com sua castração (com uma verdade que o divide enquanto sujeito) de forma a conseguir fazer semblant de Sujeito-Suposto-Saber (lugar esse colocado muitas vezes pelo analisando) sem de fato, identificar-se com esse lugar – o que é essencial para que uma análise aconteça. Um sujeito goza na vida por essa aparência, por esse semblant, operação fundamental para um analista, pois ele sabe que o ser é só aparência de ser. Saber disso faz com que a psicanálise seja efetiva, eventualmente, acrescenta Lacan, ou seja, que um psicanalista só se sustenta se não tiver que prestar contas a seu ser.

 

Somente o psicanalista, ou seja, não
qualquer um, se autoriza por si mesmo”.

(Lacan, em sua “Carta aos psicanalistas
italianos”, datadas de 1973.)

     A transmissão da psicanálise só pode ser feita a partir da análise pessoal, o que evidencia seu caráter singular (um a um) de maneira que é em cada análise que se produz um psicanalista. Neste contexto, faz sentido a afirmação de Lacan: “cabe a cada analista reinventar a psicanálise” (1979,219).

 

     A supervisão é um pilar importante para o candidato a analista que ainda não terminou sua análise. Além da necessidade de troca, em função da solidão do exercício da profissão – citada por Freud como uma das profissões impossíveis –, permite articular o universal da teoria com o singular de cada analisante, oferece uma escuta, ajuda o analista a fazer um diagnóstico e a pensar numa direção da cura (quando necessário, podem ser sugeridas técnicas de manejo). A supervisão reenvia o analista à sua análise pessoal, trabalhando os elementos que testemunham a formação de um futuro psicanalista: a entrada em análise, o transcurso das transferências, a passagem de psicanalisante a psicanalista, as destituições subjetivas, o final de análise e o passe.

 

“No fim das contas, o psicanalista que trabalha qualquer que seja o modelo psicanalítico que tenha abraçado, está simplesmente condenado a usar sua personalidade a maior parte, se não todo o tempo de uma análise, se quiser realmente analisar.”

(Psicanalista Sérvulo Augusto Figueira, Ph.D.)